A Arte de Envelhecer

Envelhecer neste país, é uma arte. Não, não é porque é bonito, afinal nossa cultura não preza ou ensina isso.

Mas é preciso ser Mestre pra envelhecer com auto-estima e conseguir manter-se pra cima. Além de uma boa (e coloque BOA nisso) dose de boa vontade.

Eu sempre tive receio de envelhecer. Todos os parentes mais idosos que já partiram, tiveram problemas de saúde sérios no fim de suas vidas. Aliás, algumas terminaram decorrentes a esses problemas. Porém, todos tinham vida própria e até que a saúde os impediu viviam independentes. Viviam em suas casas, cuidavam de suas vidas.

Já faz um tempo que estou pra falar disso aqui. Pois vivenciei/observei cenas envolvendo pessoas idosas nos últimos meses que me fizeram refletir um bocado sobre ‘envelhecer’ e o ‘respeito ao idoso’ no Brasil.

Assentos reservados/Vagas para idosos

Eles existem nos metrôs, ônibus, meios de transporte coletivo. E também nos estacionamentos de supermercados, shoppings e estabelecimentos. Mas o que mais vemos é o DESrespeito a esse direito.

Não é raro entrar no metrô e ver pessoas mais novas sentadas nos bancos reservados. A placa diz que o ‘uso do assento é livre na ausência de pessoas nessas condições’. Mas é difícil aquele moleque que está displicentemente ouvindo seu iPobre ou qualquer coisa do tipo levantar quando chega algum idoso. O que ocorre é que outra pessoa, sentada num banco normal acaba cedendo lugar. Aliás, outro dia eram DOIS homens, um mais novo. NENHUM deles levantou, fingiram estar dormindo.

Meu espírito mais impetuoso me faz ficar imaginando como eu levantaria o tal sujeito pelas golas do moleton e pediria ‘gentilmente’ para que ele cedesse o lugar QUE É DE DIREITO ao idoso. Coisa que óbviamente não farei e não faria, não só pelo minha pequena estatura, mas também porque não ando lá bem pra ficar procurando problemas que não me pertencem. Olha minha cara de Clark Kent pra bancar o Escoteiro Azulão da justiça…

*(Se bem que se fosse Jedi seria mais fácil fazer o indivíduo se levantar dali… Me renderia algum belo sermão de um Mestre e algumas horas a mais de meditação e estudo para pensar no que fiz, mas valeria a pena…)*

No caso supracitado, eu me revoltei e chamei em voz alta a senhora idosa parada NA FRENTE dos dois sujeitos para sentar no meu lugar. A senhorinha veio caminhando devagar, auxiliada por outros passageiros e sentou agradecendo. Aquilo gerou certa revolta nos passageiros no entorno, mas ninguém faz nada. Puxar briga é algo complexo e não culpo ninguém por isso. Eu achei que algum deles se tocaria quando chamei a senhorinha, mas olharam pra mim e voltaram a ‘dormir’.

Quanto a mim, fiquei na minha satisfeita por ter cumprido minha parte.
A criação japonesa ensina e é bastante rígida sobre o respeito aos mais velhos. Uma pessoa mais velha ela tem mais experiência de vida que você e vivenciou mais coisas. Não que ela estará totalmente correta sobre tudo, mas já viveu bem mais e merece ser respeitada por isso. Existem coisas que ela pode lhe dizer que podem ser úteis. Outras não serão, mas conhecimento nunca é demais, não é mesmo?

Isso significa que você precisa dar trela praquela tia chata pra cacete?

Fica a seu critério. Ter bom senso é SEMPRE a melhor pedida em qualquer caso na vida.
E ter respeito não significa ADULAR, BAJULAR, PUXAR O SACO.

Além da criação, minha religião fala muito sobre o respeito aos ancestrais, aqueles que nos deram vida e sem os quais, não estaríamos aqui, não seríamos quem somos. Não só pela educação e carinho dedicados a nós durante nossas vidas, mas também toda carga genética que herdamos deles.

Ah sim, a história da senhorinha não acaba aí. Teoricamente acabaria. Se não fosse pelo fato de que 3 estações depois, um homem levantou para descer e uma senhora (mais nova que a senhorinha para quem cedi o lugar) me chamou ‘também’ em voz alta e me disse para sentar ali. Eu gentilmente recusei dizendo que ela poderia sentar. Mas ela insistiu e ainda enfatizou que eu ‘merecia’ o lugar pela minha educação e gentileza para com a senhorinha. Agradeci sem jeito e sob os olhares de todos os passageiros ‘nos arredores’, sentei-me. A senhora balançou a cabeça afirmativamente, como se aprovasse e sorriu satisfeita. E eu pensando o quanto ceder uma vaga ‘causou’ naquela pequena viagem de metrô. Tudo por falta de respeito.

Depois desse episódio, não sei precisar quanto tempo depois, vivenciei outro. Mas este mexeu muito comigo.

‘É ruim ficar velha….’

Saí correndo de casa para ir ao médico e quando cheguei no metrô, mais precisamente na plataforma, me dei conta de que havia saído mais cedo do que precisava. Ou seja, chegaria mais cedo no consultório e tomaria chá de cadeira, por ter me antecipado. Bom, paciência. A viagem foi tranquila, o metrô estava mais vazio.

Desci na estação de destino e ao sair na rua, olhei o relógio de novo. Decidi ir ao banco fazer um pagamento o qual havia me programado para fazer depois do médico.

Parada na calçada, aguardando o sinal abrir, vi uma senhora pequena, com aparência bem idosa a julgar pelos cabelos brancos e o quão curvada andava. Ela tinha um carrinho de feira.

O semáforo de pedestres ficou verde e eu caminhei atravessando. Quando cheguei na outra calçada, olhei para trás e a senhora não havia saído do lugar. Olhei ao redor. As pessoas cruzavam e passavam por ela, ignorando-a. Um rapaz olhava para ela hesitante, parecia não saber se ajudava ou não. Fervi de novo.

Voltei e perguntei se ela queria ajuda. Pensei que o carrinho estivesse pesado. Ela agradeceu e me deu o braço. Caminhava MUITO devagar. MUITO. E explicou que estava com problemas nas pernas, agravados pelo frio intenso daqueles dias. Não me preocupei NEM se o semáforo ficasse verde. Os carros iam esperar, MESMO.

No tempo dela, fomos cruzando a rua. Não olhei ao redor, estava preocupada em auxiliar aquela senhora para que ela não tropeçasse. Subimos na calçada, ajudei a subir o carrinho. Ela o empurrava na frente (ao contrário do que normalmente fazemos, que é puxando atrás de nós) porque precisava dele para se apoiar. Isso me comoveu. Fomos caminhando e ela me perguntou onde eu ia. Eu disse que ia até o banco. Ela disse que seguiria em frente e que aceitava minha companhia até o banco então.

Durante todo o trajeto, ela repetiu várias vezes ‘como é ruim’ envelhecer. Reclamou de suas dores, do frio e de tudo mais. Porém, também contou rápidas passagens de sua vida como corretora de seguros. Percebi também o quanto as calçadas são inadequadas para pessoas com dificuldades de locomoção. Pior que isso, era a cara feia das pessoas pela lentidão da nossa caminhada. Passavam e olhavam feio. Olhares os quais ignorei MESMO, não aceito isso. Eu estava com uma senhora com dificuldade de locomoção, usando um carrinho de feira para se apoiar, ora essa! Quem tem pressa, que desvie.

Chegando perto do banco, ela contou seu destino: pelo menos uns 10 quarteirões ainda mais para frente.
Agora imaginem vocês que o pequeno trajeto da calçada até o banco eu faço em cerca de 5 minutos ou menos. Levamos cerca de 15 minutos.

Em frente ao banco, nos despedimos. Ela agradeceu imensamente pela minha ajuda, desejou-me bençãos e felicidade. Eu lhe beijei a fronte e desejei o mesmo. Entrei no banco, olhando ela seguir seu caminho, no seu passinho lento apoiada pelo carrinho de feira.

Não fiz o pagamento, o tempo livre que eu tinha foi gasto no trajeto com ela. Mas fiquei sem jeito de dizer isso e por isso, entrei no banco esperando ela se afastar um pouco e saí apressada indo para o médico, quase cheguei atrasada. As palavras daquela senhora ficaram na minha cabeça boa parte do restante do dia: “É ruim ficar velha…”

PÔ! Cresci aprendendo que os mais velhos devem ser respeitados, que ser mais velho faz de você alguém mais experiente e com ‘algo’ para contar e passar aos seus. Ouvir uma pessoa dizendo que é ruim algo que eu entendo como digno de respeito é duro. Não deveria ser assim. E os olhares feios e o desprezo das pessoas só confirmam o porque alguns idosos pensam como esta senhora. Envelhecer neste país é complicado.

‘Sou menor de idade…’

Olha eu e os assentos reservados no metrô de novo.

Mas desta vez, era daqueles trens mais antigos que ‘nem assento’ diferente tem. Aí é pior, as pessoas FINGEM descaradamente que não sabem que precisam ceder lugar para idosos, grávidas e pessoas com crianças de colo.
Até que o número de pessoas sentadas era mais de idosos mesmo e quando entrei, havia assentos vazios. Sentei.

Não me lembro em que estação, um casal idoso entrou. E pareciam ‘não muito’ acostumados a andar de metrô. Prontamente me levantei e apoiando a senhora, ofereci o banco. Ela sorriu e aceitou. A moça ao meu lado levantou também, oferecendo ao marido. E então veio a surpresa. “Não, moça. Sou menor de idade! Preciso crescer, pode ficar sentada…”
Isso arrancou risadas dos passageiros no entorno. A moça também riu, porém insistiu muito. O senhor repetia brincando que era muito jovem e não precisava, tinha 84 (!!!) anos e precisava crescer mais. Depois de muita insistência, ele aceitou. Sentou e olhou para mim e para a moça: “Vocês brilham, meninas… Que maravilha!”.
Fez ainda mais outras duas piadas, as quais não me lembro, porém lembro de ter rido muito feliz e ouvir as risadas dos passageiros próximos. Aquele senhor emanava jovialidade e alegria, contagiando a todos que estavam ali perto dele.

Fiquei emocionada com o jeito dele. Sempre que vejo um idoso assim, tão animado e de bem com a vida, peço aos Deuses que me guiem para que eu siga um caminho assim. Não quero envelhecer chata, ranzinza, reclamando dos problemas de saúde (que todos temos quando vamos envelhecendo) e dando dor de cabeça para os outros.

Que eu possa envelhecer com sabedoria e aprender a Arte de Envelhecer!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: