“Afinal, você é um homem ou um rato???”

Sempre quis dizer essa frase. Ela já é tão manjada em filmes, livros e etc…
Mas eu nunca pensei que ela me viria a mente quando a resposta é: “um rato”.

Há dois dias atrás, aqui na casa da mini-família (definição dada pelo Pedro, sobrinho do Milton a esta casa onde vivemos nós três), ouvimos barulho na caixa dos jornais reservados para recolher os dejetos caninos na varanda do fundo.

Não tive dúvidas: levantei-me e fui lá fora, seguida pelo meu fiel filho canino, Tamuz, “o Audaz”. Cassy, “a Bela” (se o Tamuz falasse, diria que ela está mais pra fera de tão gordinha), estava ocupada demais roncando, quero dizer, como uma boa filha, protegendo sua mamãe dentro de casa.

Acendi a luz e o cão correu em direção à grade onde a caixa de jornais fica apoiada. E então, ele surgiu. Escalando o portão da escada em direção ao telhado. Razoavelmente gordinho e cinza, com patinhas e rabinho rosado… Hm, talvez vermelho claro. Muito rápido e com uma agilidade, o animal desapareceu por entre os elementos vazados do muro em direção à casa do vizinho.

Olhei para meu querido filho canino, que olhava para mim. Quase pude ouvi-lo dizer: “Você viu aquilo, mamãe, você viu aquilo?”
Afaguei a cabeça dele e murmurei um “Bom garoto… Bom rapaz.”
Afinal, ele fez a parte dele. Correu em direção ao inimigo e me mostrou onde estava.

Enquanto isso, no escritório, a nossa dama em perigo, digo, Sammy, aguardava nervosa o resultado de nossa patrulha.

*interlúdio sobre a casa do vizinho*
A residência do nosso vizinho estava abandonada até 8/9 meses atrás. Aliás, ficou assim por cerca de uns dois anos. Até que decidiram reformá-la.
De lá pra cá, além da barulheira infernal (puseram a residência praticamente toda abaixo, mantendo apenas a parede que dava de frente para a rua), uso de bate-estacas (proibidos por lei, viemos a descobrir depois), rachaduras e vazamentos de canos aparecendo pela nossa casa, perdemos a utilidade do nosso elemento vazado.

Antes da reforma, aquela área era um quintal na casa do vizinho e por isso, a escolha de colocar elementos vazados no muro. Para desfrutar da brisa e da iluminação que vinha dali durante parte do dia.

Refeita a casa, foi construído um cômodo ali. E entre a nossa parede e a parede do vizinho agora existe um vão. Sim. Parede… vão… parede.

Na época em que percebemos isso, até comentei com o Milton que isso não seria bom, esse tipo de vão dá margem para seres criarem ninhos… Mas isso faz realmente muito tempo e eu não imaginei que poderia estar certa…

*fim do interlúdio sobre a casa do vizinho*

“O que era???”, ela perguntou aflita de dentro do escritório

Olhei para o cão e disfarçando, respondi… “Nada de mais…”

Ela tem pavor. Hojeriza… E tudo mais de asco que se possa imaginar dessa pequena…(hm, nem tão pequena) criatura. Achei que por bem, deveria omitir o caso e falar com o patriarca da casa para resolvermos o problema sem molestar a dama…

Mas, como toda mulher (eu sei, sou uma), a curiosidade (mórbida e mazoquista neste caso), venceu e ela insistiu, mas agora num tom irritado e inquisidor:
“Eu ouvi o barulho, o que era?”

Tentei uma tática que o Milton costuma usar e às vezes funciona…. “Ah… Você realmente quer saber? Você não precisa…”, respondi no tom mais calmo e tranquilizador que pude. Afinal, cá entre nós, eu também fiquei agitada por ter visto o ratinho… er, rato.

Bom. A tática não funcionou desta vez. “Sim, eu quero saber…. O que era?”

Respirei fundo, o cão brincava com sua bolinha laranja… Olhei para o rosto dela, me encarando firme e séria pela janela, aguardando uma resposta.

“Ok… Era um rato…”

A senha para destravar o modo “mulher apavorada e extremamente nervosa” foi dita e a doce Samara se tornou uma pessoa totalmente fora de si. Começou a falar sem parar, repetindo o quanto odiava aquela criatura, entre outras coisas mais.

Eu e o cãozinho entramos. Não havia mais nada a fazer, o elemento partira.

Sentei ao lado dela e tentei acalmá-la de todas as formas. Ela fazia perguntas movidas pelo seu pavor em se deparar com o animal e eu rezando para que essa criatura não voltasse mais.

“Ele escalou a grade?”, ela disse quase histérica

“Escalou. Subiu muito rápido. Impressionante…”, respondi.

“Ah meu Deus!!!! E se ele entrar aqui pela janela?”, ela disse apavorada.

Enquanto relembrava a imagem do bichinho subindo e como alguém que não conhece ratos… Não sabia a resposta. PORÉM, as chances eram grandes…

“Ratos não escalam paredes, Samara….”, respondi num tom sério. Mas eu mesma não tinha certeza disso. “Eles não têm ventosas….”

E então, vieram as pérolas…

“Mas e se ele for um rato ninja?????”, ela disse num susto.

Engoli parte do riso, imaginando um rato ninja e sarcásticamente, não tive dúvidas…

“Se for um rato ninja ele é o Mestre Splinter, das Tartarugas Ninja…”, disse rindo.

Mas ela não riu. Mal, mal… Ficou quieta… Pensativa.

“E se ele assistiu Missão Impossível????”, ela perguntou assustada.

“Ah, não. Pára. Chega. – Eu disse gargalhando… – Ele estaria atuando em Hollywood com o Tom Cruise… Desencana disso.”

E o vilão malvado sumiu… A ração canina guardada em um local fechado (ratos gostam de ração para cães, sabiam? Talvez porque não exista ração para ratos….)

Mas, nossa paz durou pouco…

Eis que, ao final do nosso jantar, o cãozinho latia histérico. Não parava. Rosnava. Ele estava irritado, bem diferente dos seus latidos casuais e manhosos ou solicitando atenção e comida.
Milton subiu e foi averiguar. Respondeu que não havia nada… Provavelmente um dos pedreiros estava no ambiente ao lado e o cão se incomodou (eles ficam muito estressados com isso).

Milton saiu para dar aula e eu, estava me preparando para repousar, com um resfriado acachapante me pressionando a cabeça e as bochechas… Samara subiu para pegar o cãozinho pelo focinho e dar aquela bronca pelos seus latidos, que haviam recomeçado. Eu já estava quase me deitando quando um grito apavorante veio do andar de cima.

Subi correndo e já imaginando que “Ele, o Rato” estava de volta, abri o portão de ferro olhando para os lados e pensando “com o que vou matar esse bicho”?
Sobre a penteadeira e a cômoda, enfeites normais, nada úteis para enfrentar um rato. Respirei fundo e lá fui eu para o campo de batalha…

Cheguei na varanda, e ela, apavorada apontava para uma direção, repetindo “ele está lá, ele está lá…”. Saí e fui na direção do cãozinho, que olhava firme e rodeava novamente aquela mesma grade. Eis que, ali encostada na grade repousava uma vassoura. “Ah-ha! Você mesma, querida, venha cá…”.

Agora, armada com a vassoura e meu fiel cãozinho ao meu lado, estava pronta para a luta contra o vilão cinzento… Não muito certa e segura de que seria bem sucedida, sendo bem franca. É contra meus princípios tirar a vida de qualquer animal, a não ser que ele me ataque. Mas duas mulheres encolhidas num canto com dois cães não iriam resolver nada. Alguém teria que ser o “homem da casa” naquele momento e o cãozinho não era a figura adequada para o papel…

O cão rondava… Erguia-se nas patas traseiras e apoiava as dianteiras na grade, cheirando, choramingando, aquele chorinho canino de quem quer pegar a presa… Descia, rodeava mais um pouco e repetia o gesto. “Ele está ali… Atrás das caixas, eu vi!!!”, ela dizia apavorada.

Contornei a grade e olhei. Ali ele não estava mais. E se não estava mais, ou ele escalara a grade ou se escondera. Mas ela insistiu sobre as caixas.

Com a vassoura e tomando uma certa distância (ratos saltam, sabia?), dei trancos nas caixas. O cão ergueu suas orelhas e ficou alerta esperando por qualquer movimento. Nenhum barulho. Olhei do outro lado… Cutuquei outra caixa… nada.

Foi então que lembrei do cano… Um cano de PVC branco, que ficava ali. Usávamos para pendurar a mangueira, pois não tinha nenhuma outra utilidade. Sei lá, aquelas coisas que colocamos em um canto para nos desfazermos depois e acabam ficando.

Não ousei colocar meu rosto na extremidade para olhar para dentro… Além de já ser noite, eu não sabia se a vil criatura estava ali dentro. Com a vassoura, comecei a bater no cano. Numa extremidade nele.

E eis que ele saiu, assustado (e a Sammy gritou agoniada). O bicho correu e escalou novamente a grade para se refugiar depois dos elementos vazados. Sammy chorava apavorada. “Não quero ficar na mesma casa que um rato…”

Eu a abracei. Ela estava realmente assustada (não que eu duvidasse disso antes). Mas fico sempre comovida quando as pessoas demonstram tamanho pavor diante de algo e quase posso sentir o quão difícil é enfrentar isso. Fiz o possível para acalmá-la. “Vamos tirar tudo o que está sobre a grade!!!!”, ela disse enxugando as lágrimas, mas ainda soluçando. “Não quero nenhum nicho ali…”. Prontamente concordei e me mostrei animada com a sugestão. “Isso! Isso! Vamos tirar tudo agora… Mas vamos fazer mais. Você vai até lá embaixo, por favor, traz um par de luvas de borracha da Te e as caixas de veneno de rato que o Milton comprou. Vamos limpar o lugar e providenciar para que o rato não retorne…”

Então fizemos isso. Retiramos tudo dali… E o principal, o cano. Precisávamos nos desfazer dele também.

Quando entreguei para a Samara, pela grade, cairam “coisinhas” que eu não pude ver o que eram. Ela examinou e disse: “É ração dos cães….”

É. O cinzento estava usando o cano de armazém. Sempre que sobrava comida no pote dos cães, ficava ali, pois mais tarde eles sempre acabavam comendo. Nessas, o médio roedor passou a fazer supermercado no potinho dos cães e guardar no cano.

Final da história… Cano jogado na caçamba de entulho da construção do vizinho. Todas as caixas retiradas de cima da grade e o veneno devidamente colocado dentro do vão, entre o elemento vazado e a parede do vizinho.

Se o rato vai morrer? Segundo as instruções da embalagem, devemos monitorar o local daqui uns 7 ou 10 dias para ver se o animal se alimentou do veneno.

Minha consciência? Pesada. Essa minha maldita mania de romantizar o que não deve, já imaginou se for uma rata que estava grávida e estava armazenando comida para seus futuros filhotes ou coisa parecida. Só sei que quando o vi subir pela grade, escalando com suas patinhas que pareciam mãozinhas, fiquei maravilhada com a mãe natureza por fazer um animal assim, tão vivo e rápido.

Me perguntei porque não o golpeei com a vassoura enquanto ele subia pela grade. Ele foi rápido, mas eu teria conseguido se tivesse agido. Ele cairia tonto lá embaixo e teríamos que descer correndo para continuar a caçada. Não ia ser nada fácil…

É. Foi melhor ele ter fugido. Eu não teria conseguido matá-lo com a vassoura.
Talvez movida pelo pavor da Samara ou alguma ameaça que ele fizesse aos cães… Mas não posso afirmar.

Bom, tudo acontece como deve ser. Daqui uma semana, vamos ver se ele comeu o veneno.
Senão, teremos que tomar novas providências.🙂

Afinal, eu sou “humana” e ele… um rato.

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